domingo, 1 de maio de 2016

Crítica: Ave, César! (Hail, Caesar! / 2016 / EUA)


Crítica:

Ave, César! (Hail, Caesar! / 2016 / EUA)

Direção: Joel & Ethan Coen

De uma estátua de Cristo na cruz, corta-se para o crucifixo afixado ao terço do angustiado Eddie Mannix (Josh Brolin). Cristo é uma imagem, e através de sua imagem, seja a divindade “real” ou não, ele se faz presente na vida daquele sujeito.

Essa é a primeira cena de Ave, César!, que logo dá lugar à Mannix impondo-se perante a atriz hollywoodiana que posa despretensiosamente a um fotógrafo. A figura da atriz é um produto, e o uso de sua imagem, uma mercadoria. Além de mercadoria, a imagem promove discursos. Qualquer imagem ou articulação destas. Isso o Cinema norte-americano sempre sacou muito bem, e fez uso efetivo do recurso audiovisual enquanto linguagem, e não apenas nos filmes. Joel e Ethan Coen, cineastas de humor ácido e visão afiada, lançam uma lente perspicaz sobre o próprio Cinema e o que vem a ser a imagem enquanto linguagem.

Acompanhando Mannix em uma série de eventos caóticos envolvendo o sequestro de um ator famoso, problemas de diretores com seus atores, polêmicas e fofocas, além de uma reunião com líderes religiosos de divergentes vertentes para discutir um filme sobre Cristo, os irmãos Coen tem o ambiente ideal para trabalhar suas reflexões, já que o personagem de Josh Brolin é uma espécie de empresário cuja função é justamente fazer o manejo das imagens que são divulgadas para o público e o discurso que elas criam. Pois o espetáculo promovido pelo Cinema não está somente nos filmes, mas igualmente em toda a mitologia criada em torno das figuras nos bastidores do processo cinematográfico.

À guisa de exemplo, uma atriz grávida e solteira deve ter um marido para sustentar uma imagem de inocência que é vendida para o público. O que é lido e sabido sobre ela é tão entretenimento quanto o filme em que atua, e as possíveis facetas sobre aquela mulher devem ser especificadas para os consumidores das imagens. É um diálogo que se cria a partir do que se mostra. O que é uma questão já clássica no que concerne o Cinema enquanto Arte e Filosofia. Como não poderia deixar de ser (dado o momento histórico em que se passa, e o seu tema), Avé, César! explora o modo como a Sétima Arte se encontra articulada nos processos envolvendo capitalismo e comunismo, servindo de veículo para ideais e símbolos. O que é ainda mais interessante, no entanto, e que não poderia deixar de acontecer num filme dos Coen, as contradições se fazem presente de modo ainda mais pulsante, e aqui elas se fazem discursos a partir das imagens, como quando, por exemplo, os comunistas se reúnem para seu grupo de estudo em uma luxuosa residência à beira da praia. O que não significa que o capitalismo seja visto com olhos menos satíricos pelos diretores, e a todo momento perpassa questões do uso da imagem para promover ideologias envolvendo o American Way Of Life, e as lutas de Mannix para manter essa imagem e evitar as contradições que pululam constantemente nos bastidores de Hollywood.

E não é apenas nos meios cinematográficos que essas reflexões pairam. Os Coen aprofundam sua reflexão sobre as imagens a partir de elementos que as colocam como fundadoras de “realidades” no próprio cotidiano das pessoas comuns, e é singular o momento onde Mannix coloca um modelo de avião e um uniforme de aeromoça no quarto de seus filhos, talvez como um início de construção de um “mundo” baseado na aviação (possível novo emprego do pai) e não mais no Cinema, onde a revólver de brinquedo no coldre pendurado na cama do filho evidencia um passado de construção de ideário imagético baseado na profissão de Mannix. Para além disso, outros momentos chamam atenção no quesito da imagem enquanto discurso, merecendo destaque talvez o que envolva o jantar de Hobie Doyle (Ehrenreich) e Carlotta Valdez (Osorio), quando o primeiro reforça/vende sua imagem de “cowboy  no meio urbano” ao mesmo tempo em que, com a inocência infantil que nos conquista no personagem, desconstrói seu charme de ícone ao mostrar que usa uma dentadura no lugar dos dentes. Um momento que lembra o quão encantador é o modo como os irmãos Coen desenvolvem e brincam com as personalidades de seus personagens.

O que também acontece com Mannix. Interpretado por Josh Brolin como um homem exausto pelo peso que carrega cotidianamente, o protagonista é um personagem típico dos Coen: um sujeito comum lançado no absurdo que de súbito o rodeia. É interessante que Mannix mantenha um quadro emoldurado com os estúdios em seu escritório, onde domina com certa tranquilidade, mas que se veja engolido pelos enormes balcões dos estúdios em escala real, em um plano sagaz dos diretores. O personagem, provavelmente o mais angustiado em todo o elenco, é atormentado pela própria questão central do longa, já que se vê pressionado constantemente pelo desejo de construção de uma auto-imagem que não entre em tantas contradições. O mais curioso é que é uma auto-imagem apenas para si, como “se vendendo para si mesmo”. E se deixarmos de lado que Mannix se angustia, no fim das contas, pelo que é o denominador comum da “experiência humana” – a contradição –, ainda podemos nos compadecer do personagem se pensarmos que tenta desesperadamente manter-se como elemento honesto, verdadeiro, em um mar de ficções e construções de “realidades” onde trabalha todos os dias. Sua ida diária ao confessionário da Igreja é assim uma tentativa de anular suas contradições, seus pecados, ou mesmo pecadilhos, assim como um atestado para si mesmo do que vê como incompetência, o que a forma como “dispensa” o padre em um momento-chave da projeção é uma prova dessas reais funções da religião em sua vida.

E não é que essas discussões filosófico-existenciais façam de Ave, César! um filme sisudo. Estamos falando dos irmãos Coen, afinal de contas, capazes de veicular as mais profundas ideias a partir do humor e da sátira. Aqui, passeando desde a comédia sutil até a mais escrachada, os irmãos constroem uma obra que estabelece a contradição enquanto diálogo. Ora, conhecendo os irmãos e seu prazer em distorcer gêneros, acho difícil enxergar o longa como uma visita nostálgica à Hollywood clássica, apesar de manter uma forma onde se enaltece o caráter “cinematográfico”, seja a partir das cores fortes e distantes da realidade, dos cenários digitais que nem arriscam o realismo, ou uma narração em off. Até mesmo as várias sequências que emulam gêneros cinematográficos estabelecidos (como o melodrama, o western e o musical) vem acompanhados de constantes lembretes visuais da ficcionalidade do que vemos, apesar dos diretores brincarem deixando a câmera viajar livre pelo ambiente do “filme dentro do filme”, ignorando que tem alguém filmando aquilo. É interessante que esse caráter de “falso” que os Coen buscam reforçar seja a forma onde se encontra o conteúdo que questiona justamente essa forma. Se pensarmos na brilhante sequência musical dos marinheiros lamentando o distanciamento das mulheres, e como não tarda para que os movimentos emulem sexo homossexual, entendemos, ou podemos imaginar, onde os irmãos talvez tentem chegar.

O que é sempre um exercício curioso. Como de praxe na filmografia dos Coen, Ave, César! ressalta a futilidade das ações dos personagens com destinos espúrios que nos fazer questionar o a razão de todos os conflitos que acabamos de assistir. Uma questão comum tanto a nós quanto aos personagens. O que faz até sentido dentro da obra, onde dois personagens específicos são mantidos nas sombras: o chefe de Mannix e o ator que interpreta Jesus. O chefe é como uma divindade: não deve ser questionado e nem decepcionado. Jesus é também uma divindade, mas a única forma de presença que temos dele é a partir das imagens construídas sobre ele. Mais ou menos como o chefe. Dois arquitetos de um espetáculo que, no fim das contas, não significa nada, apesar de criar tantos significados. O que é engraçado se lembrarmos que não é o personagem de Jesus que não aparece, mas sim do ator que o interpreta dentro do filme.

O que nos leva ainda a outro, e mais essencial, questionamento: por quê tanta fritação, tanta significação dos elementos do filme? Não sei, embora imagine que os diretores devem se divertir à beça em cima disso. Mas enfim, seja como comédia de entretenimento, possível filme de homenagem ou questionamento crítico da imagem enquanto discurso, Ave, César! é certamente é mais um exemplo da capacidade de Joel e Ethan Coen criarem um Cinema multifacetado e extremamente divertido.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 01/05/2016

2 comentários:

  1. Lucas, gostei bastante do texto; acho que seu ponto de vista tem como ser ainda mais bem explorado, e as questões que você levantou serem debatidas. Você teria interesse em participar de um podcast a respeito?

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    1. Olá! Interessante a proposta. Topo sim! Pode entrar em contato comigo pelo meu email: lucaswagnernunes@gmail.com

      Abraço

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