terça-feira, 12 de julho de 2016

Dê.cadência

Dê.cadência

Cadência: unidade abstrata que mede o tempo musical, cada parte que contém os tempos; sucessão de notas e acordes que definem o tom.
“Cadências dão às frases um final próprio que pode, por exemplo, sugerir ao ouvinte se a peça continuará ou se concluiu”.

É tempo de reflexão, de pesar uma vida. Ou, bem, um trecho de uma vida. Independente de quanto tempo componha um “trecho”, é suficiente para carregar uma bagagem pesada de recordações, acontecimentos soltos componentes de uma sinfonia que ressoa a cada vez que você faça um gesto, abra a boca ou simplesmente direcione os olhos para qualquer coisa que seja.

O tempo que precede uma mudança drástica de vida talvez seja um dos mais propícios ao tipo de divagação construtora de uma espécie de sentido fictício – como qualquer sentido - que amarre seu “trecho” em seus detalhes mais singulares. Não consigo imaginar uma mudança mais drástica do que partir. Bem disse Álvaro de Campos: “Partir é viver excessivamente”, é desfazer-se do habitual, colocar-se diante de contextos que, independente de seu controle, te atropelarão como ondas, incluirão novos instrumentos à sua sinfonia, enquanto reorganizam todo o repertório que já fazem parte da orquestra. É momento de transformar-se em outro, um momento de descoberta, pois nem o mais sábio pode prever que tipo de “outro” sairá do liquidificador existencial que é dar-se a novas contingências; o máximo que pode fazer é chutar algum palpite mais ou menos sortudo.

Mas é no tempo que precede a partida que os elementos cotidianos e as memórias parecem brilhar com cores mais fortes, te forçam a encará-los e repensá-los, ou talvez apenas re-sentí-los. É assim que minha cidade – e é curioso como é a primeira vez em minha vida que me refira à minha cidade-natal como “minha” – começou a dançar à minha frente. A diversidade arquitetônica dos bairros, propiciando singulares fritações sintáticas sobre os cotidianos de seus habitantes, os parques que escondem ilusões de natureza preservada no meio urbano, o sotaque e os diversos e pequeninos tiques habituais dos nativos se tornam muito mais interessantes, e não posso deixar de olhar tudo isso com mais curiosidade. A noite desvela o desfile de tribos tão diferentes, e a mudança brusca de uma boate ou bar para outro pode deliciar simplesmente ao revelar mundos totalmente opostos, de boyzinhos com cabelo engomado falando “top”, gritando para serem ouvidos sobre o som absurdo de um couvert de R$15,00, até a galera com as vibes mais variadas reunidas em algum lugar lotado e a céu aberto, soltando baforadas e mais baforadas para cima. A única constante é a cerveja gelada.

São elementos únicos. Talvez não tão únicos como os genuinamente singulares, aqueles que conhecemos a fundo por terem se tornado fases tão familiares à nossa sinfonia particular. Os rostos conhecidos, as vozes que já manjamos, suas cadências tão nossas, a mistura de gírias e modos que se mixam no microcosmo interacional que criamos ao nosso redor. É o contato com os rostos que contam uma história guardada em nossa memória e que ressoam na música que nos acompanha quando fazemos qualquer coisa. É impossível não pausar meu momento em algum rolê e olhar para cada um desses rostos e pensar no que significam para mim, enquanto os distingo por trás da fumaça e por baixo das risadas. Como compreendo a peça que eles formam em mim e me sinto... agradecido.

Sou como um quebra-cabeça, e pinço minhas peças nos momentos que tive com muitas dessas pessoas. E é sentindo isso que compreendo que esse meu mundo particular dentro da cidade, o que verdadeiramente constituirá a saudade e nostalgia de depois, está em decadência. Já não é mais o mesmo. Os baseados compartilhados em matas escuras, rindo do ridículo da situação; os rolês inusitados que começam em um dia e terminam no outro; os filmes na alta madrugada seguidos de canecas e mais canecas de café e pizzas congeladas; o olhar daquela fulana me seduzindo e fazendo de idiota todo dia que me via na faculdade; os momentos tórridos entre qualquer quatro paredes com aquela ciclana que se fazia de tímida mas se soltava quando lhe eram apertados os botões certos; as tormentas aleatórias ainda daquela outra guria que me deu tanto trabalho; delírios de cogumelo ouvindo sapos coaxar sob um céu estupidamente estrelado; palheiros rebolados na mureta de uma cantina enfadonha... poderia escrever listas e mais listas com esses eventos que já nem existem mais, que já decaíram.

É assim que percebo que meu saudosismo se dá na base de uma ilusão, de memórias doces de contingências que se reorganizaram e reestruturaram o teatro de interações cotidianas das quais com mais saudade já me lembro. Sim, é quando percebo que já há saudade em mim que vejo mais pungentemente a decadência. A terra em que me constituí, que me constituiu, só é a mesma em seus aspectos físicos, topográficos. Nos que realmente importam, seus aspectos funcionais, ela já deixou de existir. As partidas não acontecem somente quando se muda de uma cidade para outra. Elas acontecem a todo momento, quando alguma interação se reorganiza e assume outro rosto, e muitas vezes nem percebemos logo de cara, simplesmente vamos nos adaptando à esse palco instável sem vermos que damos adeuses o tempo todo sem nos despedir. E, ocasionalmente, somos assaltados com a sensação de que as coisas não são mais as mesmas. Os grupos de amigos se reorganizam, e, por mais que sejam os mesmos amigos, são pessoas diferentes; as mulheres que amamos somem e passam a amar outros, enquanto você também passa a amar outras pessoas. É a decadência das estruturas antigas, as destruições do cotidiano que fazem outras pessoas de nós e dos outros, um influenciando o outro. Eu não sou o mesmo de ontem, e as mudanças são tão sutis que não posso sacar isso de um dia para outro.

Mas o que é decadência, também é o que dá cadência à nossa sinfonia. É o que alivanha a existência cotidiana sobre um painel em movimento que, ao mudar as imagens, mudam as vidas que toca. É a cadência que dá o ritmo à vida, confere a percepção da necessidade de movimento, a consciência de que não estou deixando algo que continuará aqui, mas que esse “algo”, seja lá o que for, já não existe mais, a não ser enquanto peças que ainda fazem parte de mim, que ainda tem alguma evidência no meu quadro geral. A decadência confere cadência e anula o tédio. Mais importante: a decadência pode até se dar naturalmente, mas pode ser produzida. Ao partir para outra cidade, um contexto diferente com pessoas diferentes, essa decadência acontece de modo mais violento, mais radical, mal dando tempo para que respiremos e nos acostumemos com o que está acontecendo, tendo que nos moldar a uma nova forma. Bagunçar as peças e ver o que encaixa. Nesse processo, perceber também o que se manterá da configuração anterior, o que ainda fará parte de nossa sinfonia ou será engolido no processo.

O que se repete ou se mantém se dá apenas como souvenirs de um tempo anterior, algo como fazer um programa antigo e meio esquecido com um amigo, ou um eventual e esquecível flashback amoroso com alguém, e até mesmo manter algum objeto físico que remeta sensivelmente a alguma relação que já acabou. Souvenirs, ou mesmo madeleines, como Proust dizia. Verdadeiras “buscas de um tempo perdido”, até que percebamos que o que compunha esse “tempo perdido” já não faz parte de nós, se perdeu no meio da reorganização de peças que sofremos quando partimos, seja geograficamente ou simplesmente vivendo o dia a dia, e não podem ser resgatados em madeleines. Há que se conquistar esperança nesse movimento de inquietude da vida, enxergar que o que confere cadência a uma existência é a própria decadência.

Ver que, de qualquer forma, há sempre novas contingências se formando no horizonte. Contextos novos e inesperados. Como um livro que você vai lendo, vai descobrindo e escrevendo uma parte ou outra. A diferença é se você vai atrás dessas novas contingências ou espera que as que lhe governam o comportamento puxem o tapete de repente. A votre guise.

*Para deixar claro, não fui eu quem teve a ideia do genioso picotamento palavrístico que serve de título aqui. Na verdade peguei no título do álbum O Ciclo da Dê.Cadência (2002) da banda cearense Cidadão Instigado. A palavra foi o gatilho para a organização dessas reflexões.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 22/05/2016 


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