Dê.cadência
Cadência: unidade abstrata que mede o tempo
musical, cada parte que contém os tempos; sucessão de notas e acordes que
definem o tom.
“Cadências
dão às frases um final próprio que pode, por exemplo, sugerir ao ouvinte se a
peça continuará ou se concluiu”.
É
tempo de reflexão, de pesar uma vida. Ou, bem, um trecho de uma vida. Independente
de quanto tempo componha um “trecho”, é suficiente para carregar uma bagagem
pesada de recordações, acontecimentos soltos componentes de uma sinfonia que
ressoa a cada vez que você faça um gesto, abra a boca ou simplesmente direcione
os olhos para qualquer coisa que seja.
O
tempo que precede uma mudança drástica de vida talvez seja um dos mais
propícios ao tipo de divagação construtora de uma espécie de sentido fictício –
como qualquer sentido - que amarre seu “trecho” em seus detalhes mais
singulares. Não consigo imaginar uma mudança mais drástica do que partir. Bem
disse Álvaro de Campos: “Partir é viver excessivamente”, é desfazer-se do habitual,
colocar-se diante de contextos que, independente de seu controle, te
atropelarão como ondas, incluirão novos instrumentos à sua sinfonia, enquanto
reorganizam todo o repertório que já fazem parte da orquestra. É momento de
transformar-se em outro, um momento de descoberta, pois nem o mais sábio pode
prever que tipo de “outro” sairá do liquidificador existencial que é dar-se a
novas contingências; o máximo que pode fazer é chutar algum palpite mais ou
menos sortudo.
Mas
é no tempo que precede a partida que os elementos cotidianos e as memórias
parecem brilhar com cores mais fortes, te forçam a encará-los e repensá-los, ou
talvez apenas re-sentí-los. É assim
que minha cidade – e é curioso como é a primeira vez em minha vida que me
refira à minha cidade-natal como “minha” – começou a dançar à minha frente. A
diversidade arquitetônica dos bairros, propiciando singulares fritações
sintáticas sobre os cotidianos de seus habitantes, os parques que escondem
ilusões de natureza preservada no meio urbano, o sotaque e os diversos e
pequeninos tiques habituais dos nativos se tornam muito mais interessantes, e
não posso deixar de olhar tudo isso com mais curiosidade. A noite desvela o
desfile de tribos tão diferentes, e a mudança brusca de uma boate ou bar para
outro pode deliciar simplesmente ao revelar mundos totalmente opostos, de boyzinhos com cabelo engomado falando
“top”, gritando para serem ouvidos sobre o som absurdo de um couvert de R$15,00, até a galera com as vibes mais variadas reunidas em algum lugar lotado e a céu aberto,
soltando baforadas e mais baforadas para cima. A única constante é a cerveja
gelada.
São
elementos únicos. Talvez não tão únicos como os genuinamente singulares,
aqueles que conhecemos a fundo por terem se tornado fases tão familiares à
nossa sinfonia particular. Os rostos conhecidos, as vozes que já manjamos, suas
cadências tão nossas, a mistura de gírias e modos que se mixam no microcosmo
interacional que criamos ao nosso redor. É o contato com os rostos que contam
uma história guardada em nossa memória e que ressoam na música que nos
acompanha quando fazemos qualquer coisa. É impossível não pausar meu momento em
algum rolê e olhar para cada um desses rostos e pensar no que significam para
mim, enquanto os distingo por trás da fumaça e por baixo das risadas. Como
compreendo a peça que eles formam em mim e me sinto... agradecido.
Sou
como um quebra-cabeça, e pinço minhas peças nos momentos que tive com muitas
dessas pessoas. E é sentindo isso que compreendo que esse meu mundo particular
dentro da cidade, o que verdadeiramente constituirá a saudade e nostalgia de
depois, está em decadência. Já não é mais o mesmo. Os baseados compartilhados
em matas escuras, rindo do ridículo da situação; os rolês inusitados que
começam em um dia e terminam no outro; os filmes na alta madrugada seguidos de
canecas e mais canecas de café e pizzas congeladas; o olhar daquela fulana me
seduzindo e fazendo de idiota todo dia que me via na faculdade; os momentos
tórridos entre qualquer quatro paredes com aquela ciclana que se fazia de
tímida mas se soltava quando lhe eram apertados os botões certos; as tormentas
aleatórias ainda daquela outra guria que me deu tanto trabalho; delírios de
cogumelo ouvindo sapos coaxar sob um céu estupidamente estrelado; palheiros
rebolados na mureta de uma cantina enfadonha... poderia escrever listas e mais
listas com esses eventos que já nem existem mais, que já decaíram.
É
assim que percebo que meu saudosismo se dá na base de uma ilusão, de memórias
doces de contingências que se reorganizaram e reestruturaram o teatro de
interações cotidianas das quais com mais saudade já me lembro. Sim, é quando
percebo que já há saudade em mim que vejo mais pungentemente a decadência. A
terra em que me constituí, que me constituiu, só é a mesma em seus aspectos
físicos, topográficos. Nos que realmente importam, seus aspectos funcionais,
ela já deixou de existir. As partidas não acontecem somente quando se muda de
uma cidade para outra. Elas acontecem a todo momento, quando alguma interação
se reorganiza e assume outro rosto, e muitas vezes nem percebemos logo de cara,
simplesmente vamos nos adaptando à esse palco instável sem vermos que damos
adeuses o tempo todo sem nos despedir. E, ocasionalmente, somos assaltados com
a sensação de que as coisas não são mais as mesmas. Os grupos de amigos se
reorganizam, e, por mais que sejam os mesmos amigos, são pessoas diferentes; as
mulheres que amamos somem e passam a amar outros, enquanto você também passa a
amar outras pessoas. É a decadência das estruturas antigas, as destruições do
cotidiano que fazem outras pessoas de nós e dos outros, um influenciando o
outro. Eu não sou o mesmo de ontem, e as mudanças são tão sutis que não posso
sacar isso de um dia para outro.
Mas
o que é decadência, também é o que dá cadência à nossa sinfonia. É o que
alivanha a existência cotidiana sobre um painel em movimento que, ao mudar as
imagens, mudam as vidas que toca. É a cadência que dá o ritmo à vida, confere a
percepção da necessidade de movimento, a consciência de que não estou deixando
algo que continuará aqui, mas que esse “algo”, seja lá o que for, já não existe
mais, a não ser enquanto peças que ainda fazem parte de mim, que ainda tem
alguma evidência no meu quadro geral. A decadência confere cadência e anula o
tédio. Mais importante: a decadência pode até se dar naturalmente, mas pode ser
produzida. Ao partir para outra cidade, um contexto diferente com pessoas
diferentes, essa decadência acontece de modo mais violento, mais radical, mal
dando tempo para que respiremos e nos acostumemos com o que está acontecendo,
tendo que nos moldar a uma nova forma. Bagunçar as peças e ver o que encaixa.
Nesse processo, perceber também o que se manterá da configuração anterior, o que
ainda fará parte de nossa sinfonia ou será engolido no processo.
O
que se repete ou se mantém se dá apenas como souvenirs de um tempo anterior, algo como fazer um programa antigo
e meio esquecido com um amigo, ou um eventual e esquecível flashback amoroso com alguém, e até mesmo manter algum objeto físico
que remeta sensivelmente a alguma relação que já acabou. Souvenirs, ou mesmo madeleines, como Proust dizia. Verdadeiras “buscas
de um tempo perdido”, até que percebamos que o que compunha esse “tempo
perdido” já não faz parte de nós, se perdeu no meio da reorganização de peças
que sofremos quando partimos, seja geograficamente ou simplesmente vivendo o
dia a dia, e não podem ser resgatados em madeleines.
Há que se conquistar esperança nesse movimento de inquietude da vida, enxergar
que o que confere cadência a uma existência é a própria decadência.
Ver
que, de qualquer forma, há sempre novas contingências se formando no horizonte.
Contextos novos e inesperados. Como um livro que você vai lendo, vai
descobrindo e escrevendo uma parte ou outra. A diferença é se você vai atrás
dessas novas contingências ou espera que as que lhe governam o comportamento
puxem o tapete de repente. A votre guise.
*Para deixar claro, não fui eu quem
teve a ideia do genioso picotamento palavrístico que serve de título aqui. Na
verdade peguei no título do álbum O Ciclo da Dê.Cadência (2002) da banda cearense Cidadão Instigado.
A palavra foi o gatilho para a organização dessas reflexões.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 22/05/2016
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