sábado, 23 de julho de 2016

Crítica: Para Minha Amada Morta


Crítica:

Para Minha Amada Morta (idem / 2015 / Brasil)

Direção: Aly Muritiba

Enquadrar Para Minha Amada Morta em algum gênero cinematográfico específico é um processo complicado. Pode-se dizer que existem traços de suspense e drama, e o mais provável é que se diga que é um “filme de vingança”. Talvez até seja, mas existe um abismo de diferença entre o filme de Aly Muritiba ou de alguma obra de Quentin Tarantino ou Park Chan-Wook. Aqui, não estamos falando de vendetas estratégicas ou teatrais, mas da própria deriva essencial do comportamento humano quando a lógica que constituia seu cotidiano rui.

Com roteiro do próprio Muritiba, acompanhamos o luto de Fernando (Fernando Alves Pinto) pela falecida esposa. Em seu sofrimento, encontra fitas de vídeos guardadas pela mulher em seu escritório de advocacia, e acaba passando horas assistindo aos vídeos, até que se depara com cenas eróticas de adultério entre ela e outro sujeito. Fernando rastreia o homem, Salvador (Lourinelson Vladimir), e passa a rodeá-lo em seu cotidiano.

Em um primeiro momento, Muritiba se debruça sobre a ilustração visual do luto de Fernando a partir do peso de simbolismos e de uma atmosfera sombria, com a fotografia de Pablo Baião mergulhando os quadros em sombras. A presença/ausência da mulher é sentida quando vemos o leito hospitalar sem colchão ainda presente no quarto do casal, quando Fernando se deita sobre os vestidos da amada (destaque para a cor vermelha, que reflete os estados emocionais do próprio protagonista ao longo da projeção, e as camadas da esposa), ou mesmo a partir da excelente performance de Fernando Alves Pinto, com fundas linhas de expressão e um olhar vidrado, uma voz que mal deixa a garganta, e se deixa, é mais em frases curtas.

O descobrimento da traição leva a uma ruptura no próprio sofrimento de Fernando, e Muritiba é feliz em um quadro específico, quando o protagonista explora o quarto de motel em que a esposa e amante transavam, e se olha através de um único bloco de espelho raspado, tornando difícil se enxergar. Sendo o Outro uma espécie de espelho no qual nos refletimos e nos construímos, faz sentido que Fernando não consiga ver sua imagem: a reconfiguração da figura da esposa leva a um desencontro consigo mesmo. A partir da exploração de imagens gravadas que se refletem em sua retina obsessivamente (em mais um plano sagaz do diretor), Fernando inicia um exercício de auto-martírio curioso em seu caos.

Pois o protagonista não é um gênio do crime ou mesmo uma pessoa fora do comum. É apenas um cara caminhando para a meia idade, com um emprego que não gosta muito e um filho que ama imensamente. É também um homem cuja amada se foi. Mas como ouvir que “tiveram um grande amor” e tomar posse da veracidade desse argumento enquanto a mulher que amava o traia e ele nem sabia? E o quê fazer com isso?

O comportamento de Fernando é errático, confuso. O que ele quer, afinal de contas? É seduzir alguém da família de Salvador e fazê-lo pagar na mesma moeda? É assassinar Salvador? Fernando não saberia responder, e Muritiba mantém o distanciamento, admitindo sua movimentação como um complicado processo de luto e articulação ontológica de significados. Não há algum psicologismo reducionista, e muito menos maniqueísmo, já que aqui não temos antagonistas, apenas seres humanos, sendo Salvador um sujeito que, mesmo em seu purismo machista fruto de sua relação com a religião, é dotado de candura, tendo na performance de Lourinelson Vladimir um veículo rico de emoções complexas, seja culpa, respeito, amor, entre diversas outras.

O suspense presente em Para Minha Amada Morta se dá de forma sub-reptícia, a partir de tensões interpessoais que os personagens não descrevem verbalmente. Os momentos de Salvador e Fernando sozinhos em cena são talvez os mais angustiantes, mesmo que o conteúdo do diálogo nem sempre traduza as tensões. O setting emocional e a configuração da mise-en-scène dão conta disso: mantendo o quadro estático, Muritiba investe na movimentação, gestos, olhares e detalhes dos atores para elevar o suspense e sugerir relações de poder. Observem o tropeço de Fernando em certo momento, que, posicionado atrás de Salvador e segurando um martelo, nos leva a pensar por um segundo que o primeiro descerá a ferramenta sobre a cabeça do segundo, ou ainda quando Fernando escuta uma terrível descrição de Salvador sobre caso com a esposa, e não bate a crescente cinza do cigarro que segura em sua boca: a tensão do momento tem o mesmo precário equilíbrio que a cinza.

Assim, Muritiba tira a mão dos simbolismos contidos nas primeiras partes do filme e investe na exploração da dinâmica emocional entre os personagens. O resultado é um filme intimista, maduro a ponto de reconhecer a complexidade dos movimentos ontológicos e da formulação de sentidos, questionando o valor da culpa e da própria vingança.

Talvez fosse mais lindo se acabasse um plano antes do que efetivamente acaba. Mas estou reclamando de barriga cheia, reconheço.

Lucas Wagner Nunes

Goiânia, 24/07/2016

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