segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Crítica: The Lobster


Crítica:

The Lobster (The Lobster / 2015 / Grécia, Reino Unido, Irlanda, Holanda, França)

Direção: Yorgos Lanthimos

Em uma espécie de realidade alternativa, homens e mulheres solteiros são forçados a ficar em uma espécie de hotel, onde tem o prazo de 45 dias para conseguir arrumar novos parceiros; caso contrário, são transformados em alguma espécie de animal infra-humano previamente definido. Veja bem... isso é diferente. Meio esquisito, talvez. Não se depara com uma trama tão peculiar assim sempre.

Diretor do perturbador Dente Canino, Yorgos Lanthimos parece se dedicar a histórias que se passam em realidades absurdas que, num strip tease bizarro, gradualmente se revelam aos olhos de um espectador perplexo. Muitas vezes, essas histórias colocam lentes de aumento sobre comportamentos peculiares de indivíduos submetidos a algumas contingências notavelmente raras, e como as personalidades de cada um parecem ser moldadas de acordo com esse ambiente em que vivem. Dito isso, The Lobster, com a trama tão peculiar descrita acima, insere seus personagens em um mundo sob controle extremamente aversivo, ao mesmo tempo em que, curiosamente, revela-se uma empreitada de caráter inegavelmente cômico.

O mundo de The Lobster cheira bastante a alegoria, um tom que o próprio roteiro parece insistir em reforçar a partir de uma narração em off que, revelando sua verdadeira face apenas com o decorrer da projeção, faz com que o filme se assemelhe a alguma fábula infantil. Apesar disso, os realizadores buscam lembrar constantemente a melancolia que permeia aquele universo, com figurinos e cenários que parecem drenados de cor, com tons envelhecidos de, basicamente, verde, marrom e cinza, enquanto que a trilha de cordas ou de velhas e desgastadas canções românticas em francês, se juntam a um ambiente que parece sempre invernal. Enquanto isso, Lanthimos filma seus atores sempre em planos mais abertos, basicamente evitando primeiros planos, numa estratégia visual que distancia o espectador de personagens que parecem sempre desconectados, de si e dos outros.

O mais curioso de The Lobster, no entanto, é que esse tom depressivo que assola o espectador durante toda a projeção, entra em choque com piadas (visuais ou verbais) que surgem a partir de elegante sutileza, buscando extrair humor simplesmente a partir do absurdo do funcionamento daquela realidade, como, em exemplos admiráveis, as cenas envolvendo as instruções e representações teatrais de como “viver a dois é mais fácil que viver sozinho”, ou ainda a partir do serviço sexual do hotel, que mantém os hóspedes satisfeitos sexualmente apenas o suficiente para quererem mais, e isso tudo porque nem citei ainda as pessoas dançando música eletrônica com fones de ouvido no meio do mato. Esse humor não vem sem função narrativa, já que permite que o espectador entre em contato com estímulos discrepantes, a melancolia do visual e o humor do absurdo tão gritante, que fazem com que, primeiro, o filme ganhe um sabor diferente do comum, e segundo, possa criar uma sensação de desconforto no espectador para que os objetivos alegóricos do filme ganhem maior evidência a partir de uma sutil exacerbação de toda aquela bizarrice. Ainda, esse humor ameniza, sem deixar que nos surpreendamos, com aspectos notoriamente mais violentos e alienados daquele universo, como a caça aos “rebeldes solitários” ou as punições físicas contingentes ao contato sexual e/ou masturbação.

Lanthimos vai assim conseguindo que compreendamos os comos e por quês do funcionamento daqueles indivíduos. Dentro de uma sociedade altamente coercitiva, os homens e mulheres vão assumindo características quase robóticas, falando suas falas como se fossem programados para expressarem um tom determinado de polidez e um otimismo claramente incoerente com as próprias expressões faciais daquelas pessoas. Ainda, os comportamentos de "sedução" que cada um dirige a um parceiro em potencial parecem vir sempre dentro dos moldes do que é socialmente determinado. No caso, os casais só podem ser formados se tiverem alguma característica em comum entre eles, como um nariz que sangra o tempo todo ou uma visão míope.

E aqui entra a minha interpretação pessoal do “significado” da alegoria construída por Lanthimos, dentre as diversas possíveis interpretações. The Lobster parece discorrer sobre como mesmo os afetos mais profundos, sentimentos de amor e paixão, parecem depender em grande parte das contingências estabelecidas em formas de regras pela política que rege aquela sociedade. Quando se trata de estabelecer uma ligação puramente centrada na ideia da necessidade social de ter um relacionamento, parece não importar para todo mundo que haja apenas uma espécie de farsa aceita no fingimento de características concomitantes, desde que não sejam desmascarados pela autoridade. Mas quando um casal quer viver algo “verdadeiro”, único, realmente movido por sentimentos genuínos de amor, carinho e paixão, a regra da característica concomitante parece ser curiosamente indispensável. Pegue, a guisa de exemplo, o casal apaixonado unido pelo fato de serem míopes. Ambos não conseguem tirar as mãos um do outro, mas o (brilhante) roteiro move a narrativa de forma com que eles se vejam pressionados pela dicotomia entre os seus sentimentos e o que é estabelecido como “aceito” pela sociedade. Se um deles não for míope, seu amor seria ainda tão aceitável? Aceito pelo próprio casal, inclusive, formado por criaturas criadas e ensinadas dentro de uma sociedade que, como uma religião, cria dogmas absurdos? Aliás, que sociedade não tem seus dogmas?

Finalizando com uma nota ambígua de enorme elegância narrativa ao ecoar os temas mais pulsantes e complexos da obra, The Lobster estuda o ser humano a partir de uma ficção com sentimentos e comportamentos bem reais, explorando os extremos e as fissuras sombrias da humanidade que, organizando suas próprias contingências a partir de um comportamento verbal torpe, cria uma série de “eus” que não podem se identificar com “outros” e nem consigo mesmo.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 29/12/2015

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