Crítica:
The Lobster (The Lobster / 2015 / Grécia, Reino
Unido, Irlanda, Holanda, França)
Direção:
Yorgos Lanthimos
Em
uma espécie de realidade alternativa, homens e mulheres solteiros são forçados a
ficar em uma espécie de hotel, onde tem o prazo de 45 dias para conseguir
arrumar novos parceiros; caso contrário, são transformados em alguma espécie de
animal infra-humano previamente definido. Veja bem... isso é diferente. Meio
esquisito, talvez. Não se depara com uma trama tão peculiar assim sempre.
Diretor
do perturbador Dente Canino, Yorgos
Lanthimos parece se dedicar a histórias que se passam em realidades absurdas
que, num strip tease bizarro, gradualmente
se revelam aos olhos de um espectador perplexo. Muitas vezes, essas histórias
colocam lentes de aumento sobre comportamentos peculiares de indivíduos
submetidos a algumas contingências notavelmente raras, e como as personalidades
de cada um parecem ser moldadas de acordo com esse ambiente em que vivem. Dito
isso, The Lobster, com a trama tão
peculiar descrita acima, insere seus personagens em um mundo sob controle
extremamente aversivo, ao mesmo tempo em que, curiosamente, revela-se uma
empreitada de caráter inegavelmente cômico.
O
mundo de The Lobster cheira bastante
a alegoria, um tom que o próprio roteiro parece insistir em reforçar a partir
de uma narração em off que, revelando
sua verdadeira face apenas com o decorrer da projeção, faz com que o filme se
assemelhe a alguma fábula infantil. Apesar disso, os realizadores buscam
lembrar constantemente a melancolia que permeia aquele universo, com figurinos
e cenários que parecem drenados de cor, com tons envelhecidos de, basicamente,
verde, marrom e cinza, enquanto que a trilha de cordas ou de velhas e
desgastadas canções românticas em francês, se juntam a um ambiente que parece sempre
invernal. Enquanto isso, Lanthimos filma seus atores sempre em planos mais
abertos, basicamente evitando primeiros planos, numa estratégia visual que
distancia o espectador de personagens que parecem sempre desconectados, de si e
dos outros.
O
mais curioso de The Lobster, no
entanto, é que esse tom depressivo que assola o espectador durante toda a
projeção, entra em choque com piadas (visuais ou verbais) que surgem a partir
de elegante sutileza, buscando extrair humor simplesmente a partir do absurdo
do funcionamento daquela realidade, como, em exemplos admiráveis, as cenas
envolvendo as instruções e representações teatrais de como “viver a dois é mais
fácil que viver sozinho”, ou ainda a partir do serviço sexual do hotel, que
mantém os hóspedes satisfeitos sexualmente apenas o suficiente para quererem
mais, e isso tudo porque nem citei ainda as pessoas dançando música eletrônica
com fones de ouvido no meio do mato. Esse humor não vem sem função narrativa,
já que permite que o espectador entre em contato com estímulos discrepantes, a
melancolia do visual e o humor do absurdo tão gritante, que fazem com que,
primeiro, o filme ganhe um sabor diferente do comum, e segundo, possa criar uma
sensação de desconforto no espectador para que os objetivos alegóricos do filme
ganhem maior evidência a partir de uma sutil exacerbação de toda aquela
bizarrice. Ainda, esse humor ameniza, sem deixar que nos surpreendamos, com
aspectos notoriamente mais violentos e alienados daquele universo, como a caça
aos “rebeldes solitários” ou as punições físicas contingentes ao contato sexual
e/ou masturbação.
Lanthimos
vai assim conseguindo que compreendamos os comos e por quês do funcionamento daqueles
indivíduos. Dentro de uma sociedade altamente coercitiva, os homens e mulheres
vão assumindo características quase robóticas, falando suas falas como se
fossem programados para expressarem um tom determinado de polidez e um otimismo
claramente incoerente com as próprias expressões faciais daquelas pessoas.
Ainda, os comportamentos de "sedução" que cada um dirige a um parceiro em potencial
parecem vir sempre dentro dos moldes do que é socialmente determinado. No caso, os
casais só podem ser formados se tiverem alguma característica em comum entre
eles, como um nariz que sangra o tempo todo ou uma visão míope.
E
aqui entra a minha interpretação pessoal do “significado” da alegoria construída
por Lanthimos, dentre as diversas possíveis interpretações. The Lobster parece discorrer sobre como
mesmo os afetos mais profundos, sentimentos de amor e paixão, parecem depender
em grande parte das contingências estabelecidas em formas de regras pela
política que rege aquela sociedade. Quando se trata de estabelecer uma ligação
puramente centrada na ideia da necessidade
social de ter um relacionamento, parece não importar para todo mundo que
haja apenas uma espécie de farsa aceita no fingimento de características
concomitantes, desde que não sejam desmascarados pela autoridade. Mas quando um
casal quer viver algo “verdadeiro”, único, realmente movido por sentimentos
genuínos de amor, carinho e paixão, a regra da característica concomitante
parece ser curiosamente indispensável. Pegue, a guisa de exemplo, o casal
apaixonado unido pelo fato de serem míopes. Ambos não conseguem tirar as mãos um
do outro, mas o (brilhante) roteiro move a narrativa de forma com que eles se
vejam pressionados pela dicotomia entre os seus sentimentos e o que é estabelecido
como “aceito” pela sociedade. Se um deles não for míope, seu amor seria ainda
tão aceitável? Aceito pelo próprio casal, inclusive, formado por criaturas criadas e ensinadas dentro
de uma sociedade que, como uma religião, cria dogmas absurdos? Aliás, que
sociedade não tem seus dogmas?
Finalizando
com uma nota ambígua de enorme elegância narrativa ao ecoar os temas mais
pulsantes e complexos da obra, The
Lobster estuda o ser humano a partir de uma ficção com sentimentos e
comportamentos bem reais, explorando os extremos e as fissuras sombrias da
humanidade que, organizando suas próprias contingências a partir de um
comportamento verbal torpe, cria uma série de “eus” que não podem se
identificar com “outros” e nem consigo mesmo.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 29/12/2015

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