domingo, 8 de março de 2015

Encontros, Desencontros, Suspiros, Sussurros


ENCONTROS, DESENCONTROS, SUSPIROS, SUSSURROS

(texto escrito após uma revisita nostálgica ao filme de Sofia Coppola, Encontros e Desencontros, inspirado pelo randezvous entre os personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson)

Primeiro, encontram um no outro um igual, um espelho que reflete sua própria condição: de estrangeiros, tanto literal quanto metaforicamente. São dois solitários, cujas interações intra e interpessoais se encontram alienadas, estas últimas incapazes de escutar os apelos silenciosos que eles emitem. E, mesmo se escutassem, adiantaria de algo? Seriam capazes de ajudar, de oferecer alguma oportunidade de luz?

Assim, os dois, em suas íntimas encruzilhadas, se ajuntam, se encontram, se confortam em brincadeiras carinhosas. Quando conversam intimamente, fecham os olhos ou olham para o teto, evitando o contato olho-a-olho. Por mais que se sintam livres para falar verdades sobre si entre eles, estão fechados em si mesmos, sendo o outro um caminho para poderem se auto-explorarem, o que em nada diminui a empatia ou o carinho que sentem um pelo outro, simbolizado por um suave carinho no pé, enquanto continuam de olhos fechados, agora em silêncio. O estado de seus olhos surge como efeito do álcool, do sono, mas também da intimidade que promovem entre si: podem olhar para si mesmos, se procurar, sem se preocupar se isso é certo, errado, ou meramente apropriado.

Quando a necessidade de se encontrarem, de estarem juntos, ultrapassa o conforto na solidão e a permissão para serem espontâneos, quando, então, o outro passa a ser atraente por quem é, por suas idiossincrasias, a fala se torna escassa, e os olhares, mais intensos.

O que, afinal, poderiam expressar através da rala linguagem verbal que fizesse jus a tudo o que grita dentro deles? Que forma há de dizer “eu preciso de você”, que não banalize esse sentimento, que não soe injusto com o outro e que ainda expresse a dimensão dessa necessidade? Aliás, que forma mais doce de dizer o indizível do que através do olhar? “Que calem-se os olhos, eles falam demais”, parecem dizer, quando finalmente cortam o contato ocular e fitam o chão.

Se encontram perdidos na tradução desses sentimentos. Perdidos na tradução de si e do outro...

Quando, por fim, consegue-se alguma tradução, é pela pressão da partida, do desencontro final. E o que é inaudível a qualquer um que não faça parte daquele ser único formado por dois corpos.

LUCAS WAGNER ALVES RIBEIRO NUNES – Goiânia, 16/07/2014

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