ENCONTROS,
DESENCONTROS, SUSPIROS, SUSSURROS
(texto
escrito após uma revisita nostálgica ao filme de Sofia Coppola, Encontros e Desencontros, inspirado pelo
randezvous entre os personagens de
Bill Murray e Scarlett Johansson)
Primeiro, encontram um
no outro um igual, um espelho que reflete sua própria condição: de
estrangeiros, tanto literal quanto metaforicamente. São dois solitários, cujas interações
intra e interpessoais se encontram alienadas, estas últimas incapazes de
escutar os apelos silenciosos que eles emitem. E, mesmo se escutassem, adiantaria
de algo? Seriam capazes de ajudar, de oferecer alguma oportunidade de luz?
Assim, os dois, em suas
íntimas encruzilhadas, se ajuntam, se encontram, se confortam em brincadeiras
carinhosas. Quando conversam intimamente, fecham os olhos ou olham para o teto,
evitando o contato olho-a-olho. Por mais que se sintam livres para falar
verdades sobre si entre eles, estão fechados em si mesmos, sendo o outro um
caminho para poderem se auto-explorarem, o que em nada diminui a empatia ou o
carinho que sentem um pelo outro, simbolizado por um suave carinho no pé,
enquanto continuam de olhos fechados, agora em silêncio. O estado de seus olhos
surge como efeito do álcool, do sono, mas também da intimidade que promovem
entre si: podem olhar para si mesmos, se procurar, sem se preocupar se isso é
certo, errado, ou meramente apropriado.
Quando a necessidade de
se encontrarem, de estarem juntos, ultrapassa o conforto na solidão e a permissão
para serem espontâneos, quando, então, o outro passa a ser atraente por quem é,
por suas idiossincrasias, a fala se torna escassa, e os olhares, mais intensos.
O que, afinal, poderiam
expressar através da rala linguagem verbal que fizesse jus a tudo o que grita
dentro deles? Que forma há de dizer “eu preciso de você”, que não banalize esse
sentimento, que não soe injusto com o outro e que ainda expresse a dimensão dessa
necessidade? Aliás, que forma mais doce de dizer o indizível do que através do
olhar? “Que calem-se os olhos, eles falam demais”, parecem dizer, quando
finalmente cortam o contato ocular e fitam o chão.
Se encontram perdidos
na tradução desses sentimentos. Perdidos na tradução de si e do outro...
Quando, por fim,
consegue-se alguma tradução, é pela pressão da partida, do desencontro final. E
o que é inaudível a qualquer um que não faça parte daquele ser único formado
por dois corpos.
LUCAS
WAGNER ALVES RIBEIRO NUNES – Goiânia, 16/07/2014

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