Crítica:
O Homem Duplicado (Enemy / 2014 / Canadá, Espanha) dir. Denis Villeneuve
por Lucas Wagner
O Homem Duplicado é um dos livros psicologicamente mais complexos de José Saramago. Versando sobre a temática da perda e procura de identidade em um personagem existencialmente amórfico, o grande escritor adentrava numa trama estranha e complicada, mas que mantinha o mesmo e irônico bom humor habitual, encontrando ainda espaço para seus típicos devaneios. Se, no entanto, o tom do livro é relativamente leve, essa adaptação dirigida por Denis Villeneuve e roteirizada por Javier Gullón opta por uma atmosfera opressiva e sombria, conseguindo manter-se essencialmente fiel ao romance, ao mesmo tempo em que tem a ousadia de explorar possibilidades criativas próprias e complexas.
A trama conta a história de Adam (Jake Gyllenhaal), um professor de História que, numa quebra de sua monótona rotina, resolve assistir um filme. Para sua surpresa, um ator figurante na película é sósia seu, e a partir de então, o pacato professor vai tentar encontrar o tal ator e descobrir mais sobre essa estranha situação.
Aproveitando a velocidade das novas tecnologias para evitar que a trama se torne arrastada como no romance (o que era um inegável problema), Villeneuve e Gullón fogem das fitas cassetes e complicadas pesquisas feitas pelo protagonista e usam DvDs e o Google, enxugando a trama e permitindo assim que a narrativa se mova de forma mais rápida e eficiente. Como já dito, todo o bom humor e a leveza do livro de Saramago aqui é trocada por uma atmosfera densa, desde o primeiro plano, quando vemos diversos prédios parcialmente cobertos por uma névoa. O tom sépia é o básico na paleta de cores do diretor de fotografia Nicolas Bolduc, que, juntamente com o constante uso de sombras, consegue uma perspectiva expressionista à obra, explorando formas de causar um estado de constante desconforto no espectador, ao mesmo tempo em que revela muito sobre a natureza distorcida de seu protagonista.
Villeneuve mantém um olhar atento para as possibilidades de simbolismos visuais, e não raro filma edifícios parecidos em formas e tamanhos, em particular no caso de duas torres pretas que lembram a estrutura de DNA. Em certo momento, o diretor ainda filma fios elétricos que se entrecruzam, e as aulas de Adam sobre a repetição de situações na História não é gratuitamente filmada duas vezes, mas ressalta a monotonia de sua rotina e, é claro, elementos essenciais ao significado do filme. Acima de qualquer simbolismo, no entanto, está a Aranha, motivo de estimulante dor de cabeça para o espectador.
Em diversas mitologias, em especial de origem africana, a aranha é vista como criadora do Mundo, tecedora de realidades, enquanto em algumas culturas é responsável por tecer realidades ilusórias com aparência de real. Com essas características, a aranha é responsável pela construção do destino do Homem, e sua teia é vista como símbolo para o Cosmos, o universo ordenado e acessível pela Razão. Quando, no fim do terceiro ato, Villeneuve dá um close em um vidro rachado de um carro, e percebemos como a estrutura do estrago se assemelha a uma teia, e isso numa cena que parece ser o melhor exemplo de Caos, podemos perceber a inteligência e confiança do diretor na condução de sua obra, quando parece viajar por mundos mitológicos (reais e/ou imaginários) aparentemente caóticos para encontrar o Cosmos.
O Homem Duplicado tem no Caos seu principal elemento, e se isso já não tinha sido suficientemente clarificado na frase que abre o filme (“O Caos é ordem ainda por decifrar”), o diretor repete a informação num plano em que Adam tem às costas um quadro negro onde várias palavras “Caos” convergem para uma “Ordem” no centro. Pois o universo do filme não faz o mínimo sentido, e não só em sua superfície, quando dois homens idênticos se encontram, mas em diversos elementos calculadamente posicionados pelo diretor e roteirista para implantar dúvidas e questionamentos na cabeça do espectador, inserindo elementos caóticos em detalhes sutis. Adam tem uma foto sua rasgada pela metade, excluindo assim a pessoa com quem divide a imagem; por que essa foto é a mesma que vemos de Anthony (Gyllenhaal também) e sua mulher em sua casa, em um momento posterior? Se Adam e Anthony são perfeitamente idênticos, por que um gosta tanto de bluebarries e o outro não? Qual é a da relação esquisita que ambos parecem ter com suas mães, quem buscam evitar?
O cotidiano vem repleto de diversos elementos caóticos que constantemente ignoramos, e a vida real vem sempre carregada e guiada pelo absurdo, e não é a toa que o filme lembre tanto a perspectiva filosófica do Absurdismo, que dita que a natureza contraditória entre o Universo e a “mente” humana causa o absurdo que é a vida em si. No entanto, vivemos à mercê das coincidências e constantemente nossa vida encontra sentido a partir do acaso. O Homem Duplicado leva essa questão ao âmbito do mitológico e quando vemos a Aranha aparecendo em sonhos, alucinações, ou mesmo no mundo real, vemos uma brecha da realidade onde o deus está tecendo sua teia e construindo contingências, criando ordem, Cosmos, sendo que antes desse estágio o que existe é o Caos, o incompreensível (lembrem-se: "Caos é ordem ainda por decifrar"). O Caos em si é um estágio para ser alcançado o Cosmos. O que talvez tenha acontecido com Adam e os outros personagens é que eles tiveram um vislumbre da engenharia da construção do Universo, e não sabem bem como lidar com isso. Logo, o filme rapidamente encara de forma literal uma perspectiva fantasiosa incrivelmente complexa e intrigante, que faz o ato de assisti-lo um exercício fascinante de busca de significados e links temáticos.
Voltando ao mundo dos meros mortais (e com a cabeça ainda girando um pouco devido à alucinação dos parágrafos anteriores), ainda vale ressaltar a competência da performance de Jake Gyllenhaal, cuja melhor atuação foi também sob comando de Villeneuve, no excelente Os Suspeitos. Aqui, o ator consegue compor Anthony e Adam com características distintas que os tornam criaturas complexas e individuais, e isso fica bem claro na própria postura altiva e confiante do primeiro, e nos ombros caídos e o andar trôpego do segundo. O trabalho de voz do ator também é notável, e se Anthony fala de forma grossa e imponente, sempre escondendo qualquer sinal de dúvida ou confusão, Adam já tropeça nas palavras e gagueja, numa representação de sua insegurança.
Apesar do uso constante da trilha sonora, Villeneuve acerta no controle que mantém sobre todos os elementos do filme, e consegue olhares atentos e intimistas que muito revelam sobre os personagens, como quando, depois de afirmar para a esposa que “está tudo bem”, Anthony entra no banheiro e, apoiado na pia, sussurra: “Fuck”. Além disso, o design de produção acerta na construção de ambientes reveladores sobre as personalidades dos moradores, como o apartamento quase sem móveis de Adam, a limpeza e organização que tem uma certa falsidade na casa de Anthony, ou até mesmo a bagunça artística da casa da mãe de Adam.
Esse texto não buscou responder perguntas acerca do significado do filme, até porque isso tiraria boa parte da graça de assistí-lo. Mas mostrou um possível caminho para sua compreensão. No entanto, há muito o que se pensar e que não foi abordado aqui: seria a “reunião pornográfica” do sonho no início e relembrada no terceiro ato mais um esbarrão com o mundo do mitológico? Qual é o sentido exato da bizarra cena final (que consegue a proeza de ser ainda mais esquisita do que era no livro)? Qual é o significado exato da enigmática chave? Buscar respostas a essas perguntas é o que faz de O Homem Duplicado uma obra tão intrigante, que merece várias visitas para cavar um pouquinho mais de seus tesouros.
(texto publicado originalmente em maio/2014)
(texto publicado originalmente em maio/2014)

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