quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Destruição


Destruição

Um pensamento: somos indivíduos que vão se constituindo nas relações que vamos travando ao longo da vida. Eventualmente, de modo fatal, vamos destruindo a configuração de quem somos, ou melhor, a constantemente formada configuração de quem somos, em relações nas quais essa configuração se mostra completamente inadequada.

Somos quebrados em diversos pedaços e, na tentativa de remontar esse quebra-cabeça, percebemos que muitas vezes não conseguimos encaixar todas as peças em seus respectivos lugares. De modo muito frequente, percebemos que faltam peças, e em cada processo de destruição que sofremos mais peças parecem sumir.

Essas peças podem não sumir ao léu, mas talvez tenham sido recolhidas pelo Outro no intrincado e caótico processo de destruição que é uma relação. A peça que antes lhe compunha agora pertence à outra pessoa, que na confusão da destruição acabou por ficar com elas.

Desse modo, encontra-se a resposta para como conseguimos sempre nos reconstruir, de uma forma ou de outra, diante de alguma destruição. Também nós fazemos uso de peças que tomamos de outros e que antes fazia parte de sua própria configuração. Aos poucos, vamos nos tornando um mosaico de peças, e um dia, se tivermos certa maturidade para tal, percebemos que pouco ou nada sobra das peças que nos compuseram nos nossos primeiros contatos com o mundo, com nossos pais, ainda quando éramos bebês. Esses mesmos pais, ao longo de suas vidas, vão ser elemento de troca de peças, pois se destroem em relações, reestruturando-se em seguida, e quando nos destruímos em nossa relação com eles, pegamos peças deles que às vezes não existia na sua configuração original quando começaram a nos educar.

Ser humano então é viver num constante intercâmbio de peças. É uma existência dialética e complexa que sempre mantém uma impressão de que falta uma imagem definitiva de quem somos, e os tolos que acreditam na existência dessa imagem se perdem justamente por não compreenderem que viver é algo muito mais complexo e ambíguo.

Aqueles que, por sua vez, tem essa compreensão podem se perder no niilismo, no pessimismo, no desamparo de não achar-se capaz de adquirir algum tipo de controle sobre si mesmos. Há uma brecha de salvação, no entanto, para aqueles que, tendo consciência dessas questões, são capazes de conquistar esperança no movimento de inquietude da vida. Mas essa esperança só se conquista depois de muita destruição, daquelas que permitem uma reconstrução com peças que possibilitem uma configuração dessa ordem.

Deve ficar claro que as mencionadas destruições não são necessariamente frutos de interações ruins. O contato com o outro, mesmo amistosamente, garante uma desconstrução do quebra-cabeça que somos de forma a haver intercâmbio de peças, que é o que aqui foi referido como “destruição”. Uma relação muito intensa – e desse tipo sempre acarretará doses perigosas de dor e alegria – vai permitir uma destruição em peças menores, muitas vezes minúsculas, tornando cada vez maior o desafio de remontar o quebra-cabeça.

Viver é, então, um ato de destruição, e destruindo-se, reconstruir-se, a partir do caos que restou do campo de batalha, composto, por sua vez, de fragmentos de campos muitas vezes mais distantes do que imaginamos.


LUCAS WAGNER – Goiânia, 07/05/2014

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