Destruição
Um pensamento: somos indivíduos
que vão se constituindo nas relações que vamos travando ao longo da vida.
Eventualmente, de modo fatal, vamos destruindo a configuração de quem somos, ou
melhor, a constantemente formada configuração de quem somos, em relações nas
quais essa configuração se mostra completamente inadequada.
Somos quebrados em
diversos pedaços e, na tentativa de remontar esse quebra-cabeça, percebemos que
muitas vezes não conseguimos encaixar todas as peças em seus respectivos
lugares. De modo muito frequente, percebemos que faltam peças, e em cada
processo de destruição que sofremos mais peças parecem sumir.
Essas peças podem não
sumir ao léu, mas talvez tenham sido recolhidas pelo Outro no intrincado e
caótico processo de destruição que é uma relação. A peça que antes lhe compunha
agora pertence à outra pessoa, que na confusão da destruição acabou por ficar
com elas.
Desse modo, encontra-se
a resposta para como conseguimos sempre nos reconstruir, de uma forma ou de
outra, diante de alguma destruição. Também nós fazemos uso de peças que tomamos
de outros e que antes fazia parte de sua própria configuração. Aos poucos,
vamos nos tornando um mosaico de peças, e um dia, se tivermos certa maturidade
para tal, percebemos que pouco ou nada sobra das peças que nos compuseram nos
nossos primeiros contatos com o mundo, com nossos pais, ainda quando éramos
bebês. Esses mesmos pais, ao longo de suas vidas, vão ser elemento de troca de
peças, pois se destroem em relações, reestruturando-se em seguida, e quando nos
destruímos em nossa relação com eles, pegamos peças deles que às vezes não
existia na sua configuração original quando começaram a nos educar.
Ser humano então é
viver num constante intercâmbio de peças. É uma existência dialética e complexa
que sempre mantém uma impressão de que falta uma imagem definitiva de quem
somos, e os tolos que acreditam na existência dessa imagem se perdem justamente
por não compreenderem que viver é algo muito mais complexo e ambíguo.
Aqueles que, por sua
vez, tem essa compreensão podem se perder no niilismo, no pessimismo, no
desamparo de não achar-se capaz de adquirir algum tipo de controle sobre si
mesmos. Há uma brecha de salvação, no entanto, para aqueles que, tendo
consciência dessas questões, são capazes de conquistar esperança no movimento
de inquietude da vida. Mas essa esperança só se conquista depois de muita
destruição, daquelas que permitem uma reconstrução com peças que possibilitem
uma configuração dessa ordem.
Deve ficar claro que as
mencionadas destruições não são necessariamente frutos de interações ruins. O
contato com o outro, mesmo amistosamente, garante uma desconstrução do
quebra-cabeça que somos de forma a haver intercâmbio de peças, que é o que aqui
foi referido como “destruição”. Uma relação muito intensa – e desse tipo sempre
acarretará doses perigosas de dor e alegria – vai permitir uma destruição em
peças menores, muitas vezes minúsculas, tornando cada vez maior o desafio de
remontar o quebra-cabeça.
Viver é, então, um ato
de destruição, e destruindo-se, reconstruir-se, a partir do caos que restou do
campo de batalha, composto, por sua vez, de fragmentos de campos muitas vezes
mais distantes do que imaginamos.
LUCAS
WAGNER – Goiânia, 07/05/2014

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