Crítica:
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
(Birdman / 2014 / EUA) dir. Alejandro
Gonzáles Iñarritu
por
Lucas Wagner
Birdman
é
a imagem de um artista procurando escapar de sua zona de conforto. Essa afirmação
cabe ao protagonista Thompson (Michael Keaton), que depois de uma imagem de
decadente celebridade consagrada pelo super-herói do título que interpretou em
uma franquia há uns 20 anos, busca afirmar-se enquanto artista “sério” através
da adaptação teatral de uma obra de Raymond Carver, a qual, ambiciosamente,
escreve, dirige e protagoniza.
Mas essa afirmação cabe
também ao cineasta Alejandro Gonzáles Iñarritu que, depois de construir uma
imagem ligada a obras mórbidas e desesperançadas como 21 Gramas e Amores Brutos,
aqui se desafia criando um longa não apenas rebuscado nos quesitos técnicos
(que rivaliza com a crueza de seus trabalhos anteriores) mas também quando se propõe
a equilibrar entre o drama e a nunca antes explorada comédia, usando ambos os
gêneros para conseguir alcançar eficientemente as ambições narrativas.
Rodado de forma a
parecer um imenso plano-sequência, Birdman
tem nesse recurso um grande chamariz que, a priori, parece exibicionismo gratuito. No entanto, nas mãos do
diretor de fotografia Emmanuel Lubenzki (cujo currículo que inclui A Árvore da Vida e Gravidade dispensa apresentações) e com um planejamento meticuloso
por parte dele e Iñarritu, o resultado é de uma fluidez admirável que capta a atenção
do espectador, além de sugerir percursos constantes entre o teatro e a
realidade, construindo um clima de tensão que se torna mais agudo justamente
pela ausência de cortes (assim como pela trilha de percussão) e também para
implantar a realidade caótica por trás dos bastidores da peça.
Mais impressionante é a
criatividade de Iñarritu e Lubenzki ao brincarem com a técnica, conseguindo que
a narrativa se torne quase que um fluxo de consciência quando viaja através do
tempo, em elipses elegantemente
realizadas (particularmente sou fã daquela em que uma proposta de sexo logo dá
lugar à preview da peça), onde a iluminação
e design de som trabalham juntos para
nos guiar para períodos psicológicos e cronológicos distintos, assim como
acontece com o uso do espaço, aqui tornado dinâmico a partir da constante “quebra”
dos ambientes físicos para se transportar a outros, tudo isso conseguindo
simular o processo de pensamento dos personagens, particularmente Thompson,
quando os realizadores percorrem seus embates com a realidade assim como consigo
mesmo, com delírios e devaneios que muitos refletem sobre como ele enxerga a si
mesmo, como quando parece mover objetos com a “mente” (sugerindo um poder
sobrenatural que desaparece na presença de terceiros) ou quando voa, e mesmo
com a voz do Birdman – sua própria voz, obviamente - que insiste em colocá-lo
contra a parede em impiedosas afirmações sobre ele mesmo.
Ao transformar o filme
nessa dialética interconexão entre realidade “externa” e “psíquica”, Iñarritu e
Lubenzki fazem de Birdman um ousado
exemplo de estilo em prol do conteúdo, já que, em grande parte, o filme é um
estudo sobre seu protagonista, um homem cujos maiores anseios existenciais se
encontram não em profundas e inarticuláveis buscas do “ser”, mas em ser
reconhecido e “amado”, uma palavra que constantemente confunde com “admirado”,
como afirma sua ex-mulher. Pois o grande embate que Thompson enfrenta diz respeito
àquele que ele acha que “deveria ser” em relação àquele que “é”, pois,
considerado um artista “menor” por ter construído sua fama em torno de uma
franquia de super-herói (o que representa um desagradável preconceito por parte
dos realizadores do filme), acredita que só seria respeitado produzindo arte “séria”,
uma que, em alguma medida, diga algo “profundo” sobre o ser humano.
O que, claro, está
aparentemente fora de sua alçada, e por isso mesmo, o seu processo criativo se
torna, como toda criação artística, uma tortuosa passagem pelo inferno
refletido por si mesmo, o que o leva a alguma espécie de auto-descoberta, culminando,
então, numa auto-destruição em prol da construção de uma imagem eterna, uma
que, assim, eleve seu “espírito” frente aos meros mortais. No fundo, sua
jornada possui um caráter intrinsecamente cômico, pois é ao aceitar sua “superficialidade”
enquanto ser humano que consegue então produzir uma performance poderosa e
repleta de sadismo. Tal superficialidade, ligada à imagem do Birdman da qual ele
tanto corre, é revelada, para si e para o público, através de uma divertida
sequência lúdica (digna de blockbuster)
e também pelo simbolismo de seu nariz reconstruído, ao final do filme. O mais
curioso é que esse clímax de sua busca enquanto artista transforma-o também
enquanto humano, e essa aceitação de “superficialidade” acaba por fornecê-lo insights sinceros sobre a atitude que
vem tomando em relação a si e ao mundo durante toda sua existência.
Diante disso, Birdman se torna uma obra que, em seu
cerne, versa sobre aceitação de si mesmo versus
a imagem que nos vemos obrigados a criar em um mundo que muito tem de fast-food imagético. Assim, seu elenco
parece em grande parte composto de pessoas em confusão ontológica, que usam a
Arte (no caso, a atuação) enquanto meio para alcançarem seus “verdadeiros selfs”, uma busca em grande parte frustrante
que encontra no ator Mike Shiner (Edward Norton) uma figura intrigante
justamente por parecer arrancar de si verdadeiras e dilacerantes expressões enquanto
no palco, ao passo que em sua própria vida não se mostra capaz de uma interação
completa com outro ser humano (nem no nível sexual) e nem consigo, não hesitando
em se apropriar de mentiras para o engrandecer em entrevistas; o que não significa
que a consciência de ser uma eterna máscara não o oprima. Já Lesley (Naomi
Watts) é, apesar da imagem de mulher forte, dotada de dolorosa carência e
necessidade de afirmação por terceiros, o que culmina numa cena onde tal
inarticulação de si mesma acaba refletida em excitação sexual num encontro
lésbico depois de aceitação e elogios pela igualmente confusa Laura (Andrea
Riseborough). Nesse meio, Sam (Emma Stone), filha de Thompson, luta para desvincular
de si a imagem de produto da falta de autoconhecimento de seu pai.
Coadunando com muita
eficiência o humor esculachado que nunca deixa que o filme se torne
demasiadamente denso enquanto drama (o que é uma surpresa por parte de
Iñarritu), a obra ambiciona levar suas reflexões acerca de auto-imagens verdadeiras
e falsas e da Arte como túnel entre elas a um nível ainda metalinguísitco, e
assim esbarra (propositalmente?) com a realidade, sendo que Keaton há uns 20
anos, também ficou marcado pela imagem que criou do Batman, enquanto o ator Mike Shiner tem, como seu intérprete Edward
Norton, uma personalidade complexa de um ator que, mesmo interessantíssimo,
deixa que seu “ego” assuma proporções maiores do que deveria.

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