Crítica:
Sicario – Terra de Ninguém
(Sicario / 2015 / EUA)
Direção: Denis Villeneuve
Se há algo que une obras diversas como Politécnica, Incêndios, Os Suspeitos e
O Homem Duplicado é a capacidade de
seu diretor, Denis Villeneuve, estabelecer uma atmosfera opressiva que vai
percorrer toda a projeção, usando de elementos que vão da chuva constante até o
uivo de vento gelado através de uma janela quebrada em uma sala grande para
inserir o espectador em universos tristes, desesperançados e tensos como seus
personagens. Assim, é surpreendente como este seu novo trabalho, Sicario, se destaque mesmo dentro de uma
já tão formidável carreira, conseguindo sustentar uma tensão contínua e um senso
de caos que fazem do próprio espectador um cúmplice no que está testemunhando.
Roteirizado por Taylor Sheridan (que interpretou o
xerife David Hale no seriado Sons of
Anarchy), Sicario segue a agente
do FBI, Kate (Emily Blunt), cujo aparente destaque em suas tarefas a tornam
ideal para ser recrutada por Matt (Josh Brolin), um agente de uma misteriosa
força especial do governo na guerra contra o narcotráfico na fronteira entre os
EUA e o México. Kate então entra num esquema obscuro e ambíguo, que a levam a
questionamentos morais em uma jornada clandestina sem limites definidos.
Com uma sequência inicial estabelecedora da incerteza
e crueldade que acompanha o cotidiano dos personagens daquele universo,
Villeneuve é hábil ao mobilizar emocionalmente o espectador desde o ponto de
partida, aumentando gradativamente a tensão de formas indiretas mas que
estruturam mais o filme em uma atmosfera tensa, como ao controlar as sensações
do espectador levando à impressão de estar em um território alienígena e
hostil, como nos planos aéreos que enfocam solitários e peculiares morros no
meio do deserto, ou na sequência noturna envolvendo visores com sensores térmicos.
Juntamente com planos abertos que enfocam bairros aparentemente calmos
(característica que aos poucos eliciam mais angústia, por sabermos ser a calma
uma farsa), Villeneuve ainda conta com a poderosa fotografia de Roger Deakins,
capaz de estabelecer um tom apocalítico ao pintar o horizonte com vermelho,
amarelo e laranja intensos em momentos estratégicos, ou com a trilha sonora de
Jóhann Jóhannsson, que com seus acordes graves crescentes parece solidificar
ainda mais a tensão, algo contribuído pelo design
de som que mantém intermitentes sons de tiros como background.
Villeneuve continua mantendo a sutileza que torna seus
trabalhos tão gratificantes, confiando no espectador como apreciador atento e
sensível. Exemplo disso é a cena que antecede uma tortura realizada por
Alejandro (Benício Del Toro), em que o vemos terminar um diálogo e pegar
distraidamente um galão de água que antes estava fora do campo. Em primeiro
lugar, nota-se familiaridade dele com o gesto, ao pegá-lo com bastante
displicência, e em segundo, e mais importante, antecipamos a intensa tortura
que ocorrerá, eliciando tensão sem nem mesmo presenciarmos a cena. E são com
elementos como esses discutidos nesses dois últimos parágrafos que o cineasta e
seus colaboradores são capazes de chegar a uma sequência do brilhantismo
daquela que se inicia com a viagem aérea até Juarez e termina num tiroteio numa
ponte, que aposta no crescendo de ação, eficiente mesmo para inserir Kate (e
nós), no caos em que está mergulhando.
Kate que é uma espécie de protagonista às avessas.
Incapaz de ter qualquer tipo de ação relevante durante a narrativa, seja por
ser mantida sem informações, ou ser punida sempre que tenta fazer algo, Kate
vai perdendo o vigor com que é apresentada no primeiro ato e é tomada
por uma angústia crescente que se reflete no número de cigarros consumidos (outro
ponto para a sutileza de Villeneuve) ou na face sempre contraída, quando não
chorosa, em desamparo. Tirando o fato de ser estabelecida enquanto protagonista
no primeiro ato, não há nada que a marque enquanto tal, num ousado processo por
parte dos realizadores que vai contra os alicerces comuns de como se contar uma
história. Ela acaba se tornando o reflexo do próprio espectador: jogado no meio
do caos e sem qualquer ponto de apoio para se orientar naquele universo. Seu
olhar é o nosso próprio, e sua função é ser um veículo para nós naquela
história, o que acaba por nos tornar um cúmplice, seja do absurdo daquele
universo ou de sua desestruturação pessoal.
Essa representação do caos parece ser a essência de Sicario, esse mergulho no incerto, numa
espécie de inferno aleatório onde a dicotomia entre o “certo” e “errado”, “bom”
ou “mal”, perde definições. Villeneuve e Sheridan reforçam essa perspectiva até
mesmo ao desarmar o espectador (e Kate) entrando em contradições curiosas ao
longo da narrativa: percebam como os “mocinhos” são figuras moralmente
ambíguas, obscuras, ao passo em que os “bandidos”, traficantes, chefes de
cartéis e mesmo policiais corruptos são retratados como figuras de família,
gentis e bem educadas; ou ainda, notem como diretor e roteirista quebram uma
expectativa de forma propositalmente decepcionante ao fazer suspense sobre os
propósitos da força especial contra o narcotráfico, apenas para revelá-los de
forma transparente e desavisada num momento aleatório. E, numa obra cujo
principal antagonista, o chefe de cartel Mario Díaz, é mantido no escuro, mais
como um símbolo ameaçador do que uma presença física, mas que, quando aparece,
segue exatamente a tendência antes mencionada da expectativa quebrada de forma decepcionante,
Villeneuve trás o absurdo ainda mais à tona ao pintar o personagem de Josh
Brolin como representação do caos, uma figura que se veste de forma excessivamente
descontraída mesmo nos mais formais dos ambientes, e que mantém sempre um sorriso sacana no
rosto, caracteres inversamente proporcionais às do chefe de tão magnâmica
missão.
É assim que Sicario
funciona, invertendo ordens e quebrando padrões, fazendo com que o desconforto
essencial que permeia qualquer aspecto da obra embase o padrão emocional que
busca despertar no espectador, fazendo-o parte, cúmplice, daquilo que presencia,
colocando-o em contato mais tácito do que racional com a aterrorizante
realidade que apresenta. Um feito raro no meio cinematográfico, mas que nas
mãos de um Villeneuve se mostra um evento de grandes proporções, capaz de
extrair tensão mesmo das expressões faciais de seus atores: o gradualmente mais
contraído e angustiado rosto de Blunt; o incongruente sorriso maroto de Brolin;
e a expressão de tristeza, enfado e frieza presente no rosto marcado de Del
Toro. A sensação que fica é que não há escapatória daquele universo, e que o
filme nos posiciona para que vivenciemos visceralmente a opressão de uma
existência engessada em meandros sombrios de canais obscuros e submersos nos
recantos da Moral, sendo o sentimento de descartabilidade uma constante para
aquelas pessoas, algo tão bem reconhecido pelo roteiro que desenvolve uma
curiosa e ambígua relação entre Alejandro e Kate, talvez pautada na simples
sensação de ser mais um objeto descartável do que uma pessoa.
De um tiroteio em uma escola de ciências exatas até
aranhas gigantes, Villeneuve trás mais uma vez o Caos para sua filmografia, e
entrega uma obra ímpar ao preocupar-se mais em atingir visceralmente o
espectador do que evidentemente levá-lo a uma complexa reflexão intelectual.
Talvez isso seja ainda mais apreciável, ainda mais brutal.
Pura obra de Arte.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
01/11/2015
Outros textos meus de filmes dirigidos por Denis
Villeneuve:

Pura obra de arte!
ResponderExcluirE uma pancada -- sobretudo para os "tios moralistas"
Mas ainda estou curioso: por que exatamente melhor filme do ano?
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