Crítica:
A
Cidade Onde Envelheço
(Idem / Brasil / 2016)
Direção: Marília Rocha
O
Cinema feito em Minas Gerais vem se tornando mestre na criação de obras que
versam sobre o cotidiano de uma maneira honesta, desprendida de recursos que
transformem a narrativa em algo espalhafatoso ou minimamente hollywoodiano. Quando assistimos obras
como Ela Volta na Quinta ou A Vizinhança do Tigre temos a impressão
de estarmos espiando por uma janela vidas que acontecem sem a mão determinista
de um roteirista que direciona tensões narrativas. A banalidade ganha
tonalidades singelas que acomodam as relações filmadas e servem de material
construtor para o espaço onde os personagens se encontram. Esse modo de
trabalhar a Sétima Arte é também basal em A
Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha.
Durante
a projeção acompanhamos uma série de movimentos entre as portuguesas Teresa
(Elizabete Francisco) e Francisca (Francisca Manuel), quando a primeira chega
em Belo Horizonte e começa a morar com a última, que já está em Minas há mais
de um ano. Marília Rocha procura capturar a fluidez natural das relações quando
omite determinantes que poderiam servir para dar guinadas à (re)aproximação
entre as duas imigrantes, e assim o processo de encontro se dá com tal sutileza
que, sem que percebamos claramente, já estamos imersos em um ambiente de intimidade
e cumplicidade.
Em
grande parte, a química entre as duas atrizes principais é essencial para que
isso aconteça. A composição de cada uma revela uma compreensão singular de quem
aquelas personagens são, e desenvolvem uma relação que reconhece bem as
fronteiras entre cada uma e onde melhor se tocam. O trunfo de Elizabete
Francisco e Francisca Manuel consiste justamente em desenvolverem uma relação
entre as personagens pautada na intimidade, onde cada uma não tenta vestir uma
máscara de cordialidade ou trai a si mesma em prol do bem estar da outra, mas
demonstram-se perfeitamente compatíveis consigo mesmas pois é pela
possibilidade de serem assim que podem contar uma com a outra. Afinal, estamos
falando de velhas amigas que se reencontram e dão uma reaquecida na relação.
Para
filmar essa interação, Marília Rocha faz diferente de André Novais de Oliveira
no citado Ela Volta na Quinta, que posicionava
sua câmera em um lugar e deixava que os diálogos desvelassem o ouro. Rocha
empreende uma busca ativa pela poesia do encontro através de uma fotografia
atenta a gestos e olhares das duas amigas, ao mesmo tempo em que compreende que
esses mesmos comportamentos, em sua falta de significados, dizem muito sobre
uma interação tal qual ocorre no cotidiano.
A
estética visa uma espécie de naturalismo ao usar poucas vezes algum artifício
que exista fora da realidade, apesar da própria montagem cinematográfica tornar
uma estética com tal objetivo algo contraditória. Mas a cineasta não se limita
por conta disso, e usa a própria quebra de padrão estético em dois momentos da
narrativa para nos inserir mais no universo particular das personagens. Com
Teresa é através da leitura, em off,
de uma carta repleta de digressões líricas e filosóficas sobre sua condição de
estrangeira, ao passo que, no caso de Francisca, se dá quando ouvimos a música Soluços, de Jards Macalé, que se inicia
no universo diegético mas extrapola para além dele.
A
elegância da escolha de Rocha se encontra justamente no fato de aprofundar nas
personagens respeitando seus limites: Teresa é naturalmente mais aberta, parece
sentir as coisas na carne viva e não tenta esconder isso, enquanto Francisca
parece viver por trás de várias camadas, talvez para se proteger, e que poucas
vezes se permite uma descontração de si mesma, e por isso ouvirmos Macalé
falando dela talvez seja mais como ela mesma permitiria falar de si.
É
uma obra de gestos comedidos, em busca da empatia e não do embate, sendo que o
único conflito explícito encontrado na trama tem seu ápice no encontro de duas
mãos dentro de um ônibus, evitando o drama mais fácil que viria na cena
seguinte e que, conscientemente, é deixada de lado pelo filme. É, assim, uma
experiência bastante mineira de sentir o Cinema: é a Arte do encontro e da
sutileza. Uma Arte que sabe achar isso no cotidiano deixando que este se
desvele como lhe convém.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 13/02/2017

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