segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crítica: A Cidade Onde Envelheço


Crítica:

A Cidade Onde Envelheço (Idem / Brasil / 2016)

Direção: Marília Rocha

O Cinema feito em Minas Gerais vem se tornando mestre na criação de obras que versam sobre o cotidiano de uma maneira honesta, desprendida de recursos que transformem a narrativa em algo espalhafatoso ou minimamente hollywoodiano. Quando assistimos obras como Ela Volta na Quinta ou A Vizinhança do Tigre temos a impressão de estarmos espiando por uma janela vidas que acontecem sem a mão determinista de um roteirista que direciona tensões narrativas. A banalidade ganha tonalidades singelas que acomodam as relações filmadas e servem de material construtor para o espaço onde os personagens se encontram. Esse modo de trabalhar a Sétima Arte é também basal em A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha.

Durante a projeção acompanhamos uma série de movimentos entre as portuguesas Teresa (Elizabete Francisco) e Francisca (Francisca Manuel), quando a primeira chega em Belo Horizonte e começa a morar com a última, que já está em Minas há mais de um ano. Marília Rocha procura capturar a fluidez natural das relações quando omite determinantes que poderiam servir para dar guinadas à (re)aproximação entre as duas imigrantes, e assim o processo de encontro se dá com tal sutileza que, sem que percebamos claramente, já estamos imersos em um ambiente de intimidade e cumplicidade.

Em grande parte, a química entre as duas atrizes principais é essencial para que isso aconteça. A composição de cada uma revela uma compreensão singular de quem aquelas personagens são, e desenvolvem uma relação que reconhece bem as fronteiras entre cada uma e onde melhor se tocam. O trunfo de Elizabete Francisco e Francisca Manuel consiste justamente em desenvolverem uma relação entre as personagens pautada na intimidade, onde cada uma não tenta vestir uma máscara de cordialidade ou trai a si mesma em prol do bem estar da outra, mas demonstram-se perfeitamente compatíveis consigo mesmas pois é pela possibilidade de serem assim que podem contar uma com a outra. Afinal, estamos falando de velhas amigas que se reencontram e dão uma reaquecida na relação.

Para filmar essa interação, Marília Rocha faz diferente de André Novais de Oliveira no citado Ela Volta na Quinta, que posicionava sua câmera em um lugar e deixava que os diálogos desvelassem o ouro. Rocha empreende uma busca ativa pela poesia do encontro através de uma fotografia atenta a gestos e olhares das duas amigas, ao mesmo tempo em que compreende que esses mesmos comportamentos, em sua falta de significados, dizem muito sobre uma interação tal qual ocorre no cotidiano.

A estética visa uma espécie de naturalismo ao usar poucas vezes algum artifício que exista fora da realidade, apesar da própria montagem cinematográfica tornar uma estética com tal objetivo algo contraditória. Mas a cineasta não se limita por conta disso, e usa a própria quebra de padrão estético em dois momentos da narrativa para nos inserir mais no universo particular das personagens. Com Teresa é através da leitura, em off, de uma carta repleta de digressões líricas e filosóficas sobre sua condição de estrangeira, ao passo que, no caso de Francisca, se dá quando ouvimos a música Soluços, de Jards Macalé, que se inicia no universo diegético mas extrapola para além dele.

A elegância da escolha de Rocha se encontra justamente no fato de aprofundar nas personagens respeitando seus limites: Teresa é naturalmente mais aberta, parece sentir as coisas na carne viva e não tenta esconder isso, enquanto Francisca parece viver por trás de várias camadas, talvez para se proteger, e que poucas vezes se permite uma descontração de si mesma, e por isso ouvirmos Macalé falando dela talvez seja mais como ela mesma permitiria falar de si.

É uma obra de gestos comedidos, em busca da empatia e não do embate, sendo que o único conflito explícito encontrado na trama tem seu ápice no encontro de duas mãos dentro de um ônibus, evitando o drama mais fácil que viria na cena seguinte e que, conscientemente, é deixada de lado pelo filme. É, assim, uma experiência bastante mineira de sentir o Cinema: é a Arte do encontro e da sutileza. Uma Arte que sabe achar isso no cotidiano deixando que este se desvele como lhe convém.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 13/02/2017


Nenhum comentário:

Postar um comentário