segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Crítica: Goodnight Mommy


Crítica:

Goodnight Mommy (Ich She, Ich She / 2015 / Áustria)

Direção: Severin Fiala & Veronika Franz

O gênero horror é uma fonte rica para explorar metáforas sociais e/ou psicológicas, para servir de espelho para o próprio espectador, ou ainda mesmo para ser um veículo moral ao disfarçar de monstro um estigma social ou comportamento socialmente reprovado. Este Goodnight Mommy, no entanto, funciona mais como uma espécie de apreciação sádica socialmente aceita ao estabelecer um espaço onde o espectador pode gozar de coisas terríveis e se divertir, enquanto na vida real uma manchete com notícias similares provocaria apenas repulsa.

Não que o longa austríaco seja o único a fazer isso; é só lembrar de obras marcantes como O Massacre da Serra Elétrica, Amargo Pesadelo, A Fonte da Donzela ou sua refilmagem Aniversário Macabro, ou (fora do gênero terror) um Oldboy ou Killer Joe. Mas há algo próprio de sua estrutura que o torna singular, algo nos modos comedidos que os cineastas Severin Fiala e Veronika Franz contam sua história, desenvolvem seus personagens e nos integram àquele universo, que mais parece aproximar o filme de um Dente Canino do que exatamente um Invocação do Mal. É assim que os diretores (e também roteiristas) conferem peculiaridade à história dos gêmeos Elias e Lukas, que desconfiam que a mulher que voltou para casa depois de uma cirurgia plástica não seja sua mãe, diferente do que ela alega.

Fiala e Franz abolem muitos dos métodos tradicionais das narrativas de horror, conseguindo incitar incômodo justamente por tornar-se, assim, mais imprevisível: ao invés de planos fechados nos rostos dos atores, vemos mais planos abertos; o silêncio reina durante a maior parte do tempo, e a trilha sonora só é usada – e de modo muito comedido – em momentos específicos; ao invés de ambientes repletos de sombras para “incitar a imaginação”, o filme é basicamente banhado em luzes claras, espaços ensolarados e uma casa cujo predomínio da cor branca capta mais a luz do sol. Este último aspecto, por sinal, ganha ainda função temática ao se coadunar com outros detalhes do inteligente design de produção, que cria uma casa com amplos espaços vazios e quadros envolvendo figuras femininas borradas e/ou viradas de costas, numa conjunção de elementos que parece dizer sobre algum vazio ontológico na veemente falta de caracteres mais pessoais naquele lar (e a citada cor branca da casa reflete, além da luz do sol, uma espécie de falta de personalidade ao não adotar uma cor mais viva/forte). Esse, aliás, é bem o tema da obra: identidades.

Quando os cineastas lançam mão de algum recurso que pareça aproximar Goodnight Mommy das obras mais conhecidas de terror, em geral são sequências oníricas ou com floreios oníricos, que exploram seus personagens a nível mais “inconsciente”, momentos estes que fogem dos aspectos mais ressaltados no parágrafo anterior para dar lugar a um tom mais grotesco e/ou fantasmagórico, às vezes até mesmo alegórico (me refiro à cena no início do filme quando os irmãos entram em uma caverna escura). E, se isso e mesmo os esforços de guiar o filme para longe das convenções do horror são tão eficazes, é bem provável que seja devido ao conhecimento dos cineastas de estarem tratando de uma trama repulsiva e inerentemente assustadora, de forma tal que podem confiar mais na dinâmica de seus personagens do que em suas técnicas para conseguir amedrontar o espectador (o que não torna o filme "melhor" ou "pior", é apenas uma característica sua). Seu enredo trabalha com questões envolvendo medos primevos – como não se sentir seguro com a pessoa que mais deveria lhe garantir segurança – e comportamentos extremos cujo grau de violência impede a passividade qualquer espectador inserido numa sociedade e criado em uma família.

Por isso que o roteiro acaba sendo a ferramenta mais importante neste filme em particular, já que é na manipulação emocional do espectador que os roteiristas alcançam uma tensão palpável ao agoniar-nos sobre como podemos nos mobilizar em relação ao que estamos vendo. Em grande parte, isso se dá devido ao ótimo desenvolvimento dos personagens e das performances eficazes, que nos aproximam daquelas figuras enquanto seres humanos verossímeis. A dinâmica entre os gêmeos, por exemplo, é essencial no ponto em que podemos conferir a parceria entre os irmãos, para que a confiança exigida em momentos mais adiantados na projeção surta devido efeito (e é mais um detalhe gratificante do design de produção o fato do quarto dos garotos surgir repleto de brinquedos e pertences pessoais que os humanizam). A mãe, interpretada de forma ambígua e trágica por Susanne Wuest, surge como uma figura complexa que hora desperta receio do espectador, hora nos causa mais pena, e muitas vezes uma espécie de comoção por compreendermos o turbilhão emocional que a mulher está passando, e como isso pode explicar muitos comportamentos mal compreendidos pela mentalidade infantil das crianças.

É num jogo de “quem será que tem razão: a mãe ou os filhos?” que os realizadores nos prendem durante a maior parte do tempo, brincando com limites mais realistas e oníricos a ponto de, quando realmente assumem uma posição de quem é vítima e quem é agressor, os personagens estão tão bem construídos, o setting tão alicerçado, que é com mais choque ainda que o espectador passa a presenciar horrores descomedidos e inesperados com verbalizações privadas constantes de algo como “não pode ser! Caralho, mas é!”.

É uma pena que o roteiro tropece no terceiro ato ao investir numa reviravolta que, embora coerente, surge covarde ao aderir aos únicos clichês realmente mesquinhos da obra, além de dar uma falsa e irritante impressão de que assim estariam fazendo algo mais “profundo”. Na verdade, parece mais insegurança do que profundidade. É sorte, então, que a obra seja aterrorizante e bem construída o suficiente para alcançar esse terceiro ato e não conseguir diluir nosso incômodo ou fazer nossas unhas roídas crescerem de novo.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
16/11/2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário