Crítica:
Direção: Severin Fiala &
Veronika Franz
O gênero horror é uma fonte rica para explorar
metáforas sociais e/ou psicológicas, para servir de espelho para o próprio
espectador, ou ainda mesmo para ser um veículo moral ao disfarçar de monstro um
estigma social ou comportamento socialmente reprovado. Este Goodnight Mommy, no entanto, funciona
mais como uma espécie de apreciação sádica socialmente aceita ao estabelecer um espaço onde o espectador pode gozar de
coisas terríveis e se divertir, enquanto na vida real uma manchete com notícias
similares provocaria apenas repulsa.
Não que o longa austríaco seja o único a fazer isso; é
só lembrar de obras marcantes como O
Massacre da Serra Elétrica, Amargo Pesadelo, A Fonte da Donzela ou sua
refilmagem Aniversário Macabro, ou
(fora do gênero terror) um Oldboy ou Killer Joe. Mas há algo próprio de sua
estrutura que o torna singular, algo nos modos comedidos que os cineastas
Severin Fiala e Veronika Franz contam sua história, desenvolvem seus
personagens e nos integram àquele universo, que mais parece aproximar o filme
de um Dente Canino do que exatamente
um Invocação do Mal. É assim que os
diretores (e também roteiristas) conferem peculiaridade à história dos gêmeos
Elias e Lukas, que desconfiam que a mulher que voltou para casa depois de uma
cirurgia plástica não seja sua mãe, diferente do que ela alega.
Fiala e Franz abolem muitos dos métodos tradicionais
das narrativas de horror, conseguindo incitar incômodo justamente por
tornar-se, assim, mais imprevisível: ao invés de planos fechados nos rostos dos
atores, vemos mais planos abertos; o silêncio reina durante a maior parte do
tempo, e a trilha sonora só é usada – e de modo muito comedido – em momentos
específicos; ao invés de ambientes repletos de sombras para “incitar a
imaginação”, o filme é basicamente banhado em luzes claras, espaços ensolarados
e uma casa cujo predomínio da cor branca capta mais a luz do sol. Este último
aspecto, por sinal, ganha ainda função temática ao se coadunar com outros
detalhes do inteligente design de
produção, que cria uma casa com amplos espaços vazios e quadros envolvendo
figuras femininas borradas e/ou viradas de costas, numa conjunção de elementos
que parece dizer sobre algum vazio ontológico na veemente falta de caracteres
mais pessoais naquele lar (e a citada cor branca da casa reflete, além da luz
do sol, uma espécie de falta de personalidade ao não adotar uma cor mais
viva/forte). Esse, aliás, é bem o tema da obra: identidades.
Quando os cineastas lançam mão de algum recurso que
pareça aproximar Goodnight Mommy das
obras mais conhecidas de terror, em geral são sequências oníricas ou com
floreios oníricos, que exploram seus personagens a nível mais “inconsciente”,
momentos estes que fogem dos aspectos mais ressaltados no parágrafo anterior
para dar lugar a um tom mais grotesco e/ou fantasmagórico, às vezes até mesmo
alegórico (me refiro à cena no início do filme quando os irmãos entram em uma
caverna escura). E, se isso e mesmo os esforços de guiar o filme para longe das
convenções do horror são tão eficazes, é bem provável que seja devido ao
conhecimento dos cineastas de estarem tratando de uma trama repulsiva e
inerentemente assustadora, de forma tal que podem confiar mais na dinâmica de
seus personagens do que em suas técnicas para conseguir amedrontar o espectador
(o que não torna o filme "melhor" ou "pior", é apenas uma característica sua). Seu enredo trabalha com
questões envolvendo medos primevos – como não se sentir seguro com a pessoa que
mais deveria lhe garantir segurança – e comportamentos extremos cujo grau de
violência impede a passividade qualquer espectador inserido numa sociedade e criado em uma família.
Por isso que o roteiro acaba sendo a ferramenta mais
importante neste filme em particular, já que é na manipulação emocional do
espectador que os roteiristas alcançam uma tensão palpável ao agoniar-nos sobre
como podemos nos mobilizar em relação ao que estamos vendo. Em grande parte,
isso se dá devido ao ótimo desenvolvimento dos personagens e das performances
eficazes, que nos aproximam daquelas figuras enquanto seres humanos verossímeis.
A dinâmica entre os gêmeos, por exemplo, é essencial no ponto em que podemos
conferir a parceria entre os irmãos, para que a confiança exigida em momentos
mais adiantados na projeção surta devido efeito (e é mais um detalhe
gratificante do design de produção o
fato do quarto dos garotos surgir repleto de brinquedos e pertences pessoais
que os humanizam). A mãe, interpretada de forma ambígua e trágica por Susanne
Wuest, surge como uma figura complexa que hora desperta receio do espectador,
hora nos causa mais pena, e muitas vezes uma espécie de comoção por
compreendermos o turbilhão emocional que a mulher está passando, e como isso
pode explicar muitos comportamentos mal compreendidos pela mentalidade infantil
das crianças.
É num jogo de “quem será que tem razão: a mãe ou os
filhos?” que os realizadores nos prendem durante a maior parte do tempo,
brincando com limites mais realistas e oníricos a ponto de, quando realmente
assumem uma posição de quem é vítima e quem é agressor, os personagens estão
tão bem construídos, o setting tão
alicerçado, que é com mais choque ainda que o espectador passa a presenciar
horrores descomedidos e inesperados com verbalizações privadas constantes de
algo como “não pode ser! Caralho, mas é!”.
É uma pena que o roteiro tropece no terceiro ato ao
investir numa reviravolta que, embora coerente, surge covarde ao aderir aos
únicos clichês realmente mesquinhos da obra, além de dar uma falsa e irritante
impressão de que assim estariam fazendo algo mais “profundo”. Na verdade,
parece mais insegurança do que profundidade. É sorte, então, que a obra seja
aterrorizante e bem construída o suficiente para alcançar esse terceiro ato e
não conseguir diluir nosso incômodo ou fazer nossas unhas roídas crescerem de
novo.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
16/11/2015

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